Entrevista com João Denys

Como você se auto define?

Um artista, um feiticeiro, um pedagogo, um sacerdote, todos em construção.

Neste domingo é seu aniversário. O que você gostaria de receber de presente de Deus, do universo?

Não quero receber nada, quero ter a leveza e a tranquilidade de só agradecer, agradecer, agradecer.

Você tem ainda o vigor dos jovens e já tem a sabedoria da maturidade?

Nem tanto vigor juvenil. Tenho uma grande vontade de me transformar em uma pessoa melhor.

Mas vamos falar de teatro, que é sua grande paixão. É mesmo?

Fui convocado para as artes. O teatro é o motor.

No seu último trabalho, Encruzilhada Hamlet, você faz uma antropofagia do original shakespereano, discute a criação contemporânea e expõe vícios da cultura pernambucana. Gostaria que você falasse desse espetáculo.

Sua pergunta já vislumbra algumas encruzilhadas temáticas e cênicas. A peça não é fácil, pois implica esforço cognitivo e coragem para contemplar-se no espelho. E ver uma imagem indesejada não é tarefa das melhores. Considero uma das mais bem urdidas peças que já escrevi, pois tento fazer um apanhado de mim mesmo, de minha criação com uma intrincada dramaturgia nova, que subtítulo de Crônica abstrata e breve do nosso tempo. Shakespeare dizia isso dos comediantes.

Essa obra dobra-se sobre si mesma e se desdobra plena de intertextualidade implícita e explícita. Nela, aglutino nossas verdades e mentiras, nossas afirmações e negações, ou seja, nossas contradições e crenças na arte, com falas, ideias e lampejos de mim mesmo, de Shakespeare, de Samuel Beckett, de García Lorca, de Tennessee Williams, de Bertolt Brecht, do Gênesis e de São Paulo, do Velho e Novo Testamento da Bíblia, de Karl Marx, de Nelson Rodrigues, de Pier Paolo Pasolini, de Jean Tardieu, de Jean Genet, de Joaquim Cardozo, de Hermilo Borba Filho, de Jomard Muniz de Britto. Em suma, das marcas que recebi de todos com os quais cruzei nos caminhos, veredas, ruas, estradas e pontes visíveis e invisíveis.

No texto Encruzilhada Hamlet, as personagens Hamlet e o Coveiro removem a cova onde foram enterrados há cinco séculos e ressurgem no ano em que a peça está sendo mostrada. Com eles vêm à tona as artimanhas do patriarcalismo, a renitência da vida, a ilimitabilidade do sonho, a restringência da morte, a extenuada luta de classe, a inconciliação dos opostos, o êxtase aflitivo de ser criador e criatura e a má fé das promessas e dos pactos sorridentes dos que detêm qualquer tipo de poder e se consideram superiores aos seus (des)semelhantes. Nesta encruzilhada de inumeráveis caminhos, interpretações e interpenetrações, as personagens de todos os teatros brincam de adquirir autonomia figural, para além dos golpes certeiros de Pirandello. Rejubilam-se com a artificialidade do mundo e dos homens: céu de teatro, terra de teatro, luminares de teatro, luz de teatro, voz de teatro, gente de teatro que ainda acredita no teatro, trabalhador de teatro que insiste em atuar com o mínimo de dignidade, quase em desespero.

O que existe de compositivo do teatro clássico ou dos grandes mestres na sua obra? Onde entram Stanislavski, Grotowski, Brecht, Artaud, Boal?

Os clássicos sempre foram meus guias. Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Sêneca são um caminho para a vida toda. Fui curtido nas obras desses dramaturgos que revisito frequentemente para me reoxigenar. Shakespeare me chegou primeiro que todos, ainda em Currais Novos, (RN), onde nasci e vivi meus primeiros dezessete anos. Calderón, Lope de Vega, Lorca, Strindberg, Tennessee Williams, Bertolt Brecht, Antonin Artaud, Samuel Beckett, Jean Genet, Pasolini, Nelson Rodrigues, Heiner Müller, Joaquim Cardozo e Hermilo Borba Filho foram me aquecendo aos poucos, em minha caminhada. O gênio artístico e espiritual de Stanislavski frequenta mais minha espiritualidade do que propriamente minhas peças. O sistema de Stan, como o chamo na intimidade, é único e ainda por explorar. Em Flores D'América escrevo cenas para estilos diferentes de atuação e uma delas é dedicada à atuação proposta pelo mestre russo. Dos que você cita na pergunta, o mais esplorado e dequem mais me aproprio é Brecht. O método de reprocessar assuntos e obras que Brecht utiliza é o mesmo utilizado por Shakespeare e é neles que bebo com mais frequência e pode ser uma senha para quem quiser penetrar minha obra. Na encenação prefiro a alquimia de todas as imagens e procedimentos de mise-en-scène: não abro mão da elegância denominada por Brecht para não dizer do solene, do grande, do monstruoso, do mortífero, do xamânico que deve ser o teatro. E digo do sublime vazio beckettiano que me persegue há anos e aparece na maioria dos meus textos. Em suma, meu avatar é SBB - Shakespeare, Samuel Beckett, Bertolt Brecht.

E referências da cultura contemporânea?

Todas as melhores, pois o que há de melhor na cultura contemporânea se não essa vala comum de referências? Saber retirar dessa cultura algo autossustentável é difícil, mas não impossível. Interessa-me detectar nessa cultura algo de permanente e semelhante àquelas propostas feitas por Italo Calvino: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade.

E no teatro brasileiro, quem está mais próximo de seu trabalho?

Nelson Rodrigues, Joaquim Cardozo.

Viga mestra da construção do seu trabalho como encenador?

A magia ou alquimia é o centro do meu trabalho. Sou promíscuo com as referências práticas. Processo um pouco de tudo que vi e do melhor daqueles com os quais trabalhei.

Seu teatro não é um "teatro do carnaval". Ele estaria mais próximo de um teatro da quaresma, da quarta-feira de cinzas?

Um mistério: nascimento, vida oculta, vida conhecida, doutrina, morte e ressurreição. Quarta-feira de cinzas jamais.

A perspectiva da morte entra sempre no seu trabalho.

É minha maneira de afirmar a vida eternamente. Morte não existe. Morte é um verso dissílabo de um infinito poema. As mortes variadas e sucessivas dão a dinâmica da imortalidade. Essa morte imensa e variegada como o espectro luminoso é a que me interessa. A morte imobilizante e imobilizada, deixo aos necrólatras.

O teatro brasileiro ainda é ignorado por muitos e nem de longe tem o status da moda e do cinema. O que você pensa disso e como enxerga a realidade pernambucana.

O teatro é sempre um luxo. Ainda mais nos dias que correm. É cheio de exigência. Como nos lembra Ortega y Gasset, nos faz sair de casa. E pra sair de casa há que se preparar. Até o mais pobre dos teatros é luxuoso nesse sentido. Para o luxo do carnaval é mais fácil. O país concentra-se para essa luxúria maravilhosa. O teatro é bárbaro, em qualquer acepção da palavra. É arcaico, impõe um encontro, uma misturação de corpos. Há uma promiscuidade latente no fenômeno teatral. Logo, num país que ainda tenta se afirmar no mundo, com todas as suas mazelas, explorações e desigualdades sociais, demorará muito a enxergar essas proposições poéticas vivas e exigentes as quais chamamos teatro. Com mais intensidade, a cegueira se espalha no plano regional e local, que também batalha para se impor culturalmente no país como o baluarte da cultural do Brasil profundo. O teatro em Pernambuco, falo do teatro erudito que praticamos, do teatro que quer atingir não só a igrejinha teatral, mas outros segmentos da sociedade, ainda está longe de lograr um plano confortável de produção artística. A sociedade burguesa, e pequeno-burguesa, precisa progredir espiritualmente, e isso é dificílimo. Os artistas precisam estudar e construir um fogo verdadeiro que aqueça a muitos; os públicos precisam se reconhecer nas obras e nos artistas para, verdadeiramente, quererem se encontrar de corpo e alma com eles. Para isso não basta leis e decretos e pesquisas. É necessário um combate aos preconceitos de toda ordem. Uma solidariedade artística que não é comiseração nem assentimento da má qualidade. Nossos artistas são desunidos; não se encontram, não se misturam; formam republiquetas contemporâneas; constituem pequenas e pobres oligarquias do menos. Nossos artistas, cheios de intuição, vivem fechados em pequenos círculos, apegados a uma tradição inventada da noite para o dia, louvam a miscigenação discursiva e não se misturam com os colegas, não veem as peças uns dos outros... Nesta cadeia, sobretudo em Pernambuco, os encontros estão fadados aos desencontros, ou seja, a invisibilidade do que por si só é visão e lugar de onde se vê: teatro.

Você tem uma obra admirada tanto como dramaturgo, quanto como encenador? É possível fazer um balanço?

É muito difícil porque atuei e atuo em muitos caminhos convergentes e já tenho mais de meio século de vida cheia de vidas visíveis e invisíveis. De Os fuzis da Senhora Carrar, de Bertolt Brecht, dirigido por Marcus Siqueira em 1978 à minha Encruzilhada Hamlet de 2009 há uma bem grande e diversa produção como ator, dramaturgo, diretor, cenógrafo, iluminador, figurinista, maquiador, sonoplasta, aderecista, programador visual, pesquisador, ensaísta e professor de teatro por mais de duas décadas. Tudo em mim foi atenção a chamados. Chamados de todos os lugares. Nunca procurei as coisas do mundo. Atendi aos mais desbaratados e, às vezes, desumanos pedidos. Atendi até não querer mais ou não ter mais como produzir. Ficar velho é ruim na consistência da pele, nas questões de superfície, mas é muito bom no osso, nas artrites da paixão, da imaginação, do onírico. É impossível fazer um balanço. É mais fácil um testamento e é isto que faço com Encruzilhada Hamlet. Mas ainda não fechei para balanço. Ainda não montei Flores D'América. Deixei tanta coisa por fazer. Abandonei tantos projetos... Luto comigo mesmo todo dia. Pedras, flores e deuses danados dão lugar a uma prosperidade que almejo, uma serenidade a que aspiro, um perdão que oferto e reivindico. Meu próximo passo, o mais pretensioso, é atingir o Próximo, ou melhor, o Próspero, aquela iluminada personagem de Shakespeare.

Existe toda uma coerência poética...

Mesmo quando não busco, uma força, que teimo em desconhecer, me conduz a esta interconexão significa. E quando não a enxergo ou a proponho, o receptor inventa, conecta, encontra por mim.

Que tema lhe interessa no teatro neste século 21?

O ser humano, reduzido a sua constituição mínima permanece inalterado. Essa condição terráquea, ou mesmo interplanetária, não alterar os piques de orgulho, de egoísmo, de vaidade, de sadomasoquismo, de pavor, de ódio, de sanguinário desejo de dominação. O amor transita firme e forte entre esses quesitos constitutivos da condição humana sem lei nem rei, nem a paz neurótica incriada. Eu preciso, diante disso, de minha invenção para não parar de lutar, para não morrer de verdade. Todos necessitamos desses outros mundos, ou como dizia o admirável Joaquim Cardozo, de signos estrelados, de mundos paralelos. Portanto, são esses os temas que vão continuar a me interessar: a condição humana, que eu gostaria muito que se alterasse radicalmente, para que eu também pudesse mudar meus temas. Nestes últimos três anos redirecionei minha dramaturgia. Suspendi meus laços com o Sertão do Seridó e mergulhei no meu Sertão interestelar. Em minha radical teatralidade. Quero a tempestade, a ventania, o sonho, meus próximos trabalhos.

Você tem dois filhos. O que você pensa do futuro para eles?

Creio que tenho dado o melhor de mim para Hana Luzia e João Pedro, minhas duas belas e inteligentes crias. Nesta doação, meu pior também se doa ou se mostra, porém eles sabem escolher o que de mais bonito os conforma. O futuro tem de ser melhor, será lindo! Ora, se em tantas pessoas eu plantei, por intermédio do teatro, uma semente de poesia, de carinho, de bem-querer, que dizer desses rebentos que me transbordam e são por mim transbordados há vinte anos? Todas as minhas horas são re-dinamizadas com e por eles. E mesmo que o futuro seja duro, nebuloso, eles têm os instrumentos para a luta.

Nesta vida, por que é preciso lutar?

Só quem tem muitos padrinhos políticos, ricos mecenas, fortes protetores não precisa de luta, de embate diário, de constante labuta. Nesta vida, você diz nesta, e em todas as vidas possíveis, é preciso lutar para se livrar de qualquer vida grosseira, dura, obscura. Lutar até o fim para ser melhor, para persistir na vibração, no estremecimento que emana energia, calor, mesmo no pior, marchando pra frente. Beckett, com todo o seu niilismo afirmava: worstward ho - pioravante marche. Lutar sempre sem destruição. Lutar é uma construção. Lutar é trabalho. Lutar é nossa mais intensa dramaturgia.