Diretora experimenta linguagem em “Corte Seco”

por Estela Cotes
 
A diretora Christiane Jatahy e Cia. Vértice de Teatro estão em São Paulo até 14 de março com “Corte Seco”, um espetáculo em andamento. Dez atores em cena, entre os “globais” Eduardo Moscovis e Marjorie Estiano, interpretam um texto previamente encenado, mas que sofre alterações ao vivo.

Os cortes são feitos pela própria diretora que interfere no percurso da narrativa. O texto foi construído a partir de histórias pessoais, processos judiciais, notícias de jornais entre outras referências levadas pelos atores. Em um exercício de metalinguagem – recurso um tanto quanto desgastado nos últimos anos – “Corte Seco” leva para o palco os improvisos da vida que, como a edição, podem interromper o curso determinado das coisas.

Christiane Jatahy, também dramaturga e atriz, falou ao Colherada sobre a última peça que encerra a trilogia iniciada por “Conjugado”, em 2004. Confira!

Colherada: Sua ideia ao montar um espetáculo com improvisos é explorar principalmente a atuação dos atores?

Christiane Jatahy: A proposta de linguagem do trabalho é explorar as fronteiras entre realidade e ficção, entre o que é marcado com o que é livre, entre o ator e o personagem. Os atores estão jogando o tempo todo no aqui e agora, mesmo nas cenas marcadas, que são 95% da peça. Essa “liberdade”, as pequenas frestas do improviso, tornam o teatro vivo para o ator e para quem vê.

C: Depois deste trabalho o que conclui desta experiência enquanto linguagem teatral?

Acredito que essa experiência coloca o público e atores no mesmo tempo “presente”. A comunicação se abre e a plateia sai da passividade e interage com a cena.

C: Como tem sido a reação do público, quando interfere com um corte seco?

O jogo é explícito e o público está no triângulo dessa ação. Algumas vezes, eles ficam suspensos como a cena, outras eles se divertem, e provavelmente, em alguns outros momentos eles devem pensar, “mas porque ela cortou justo agora” ou ” por que ela não corta agora?” Esse pensamento é colaborativo e dá ao público um lugar de “co-autor.”

C: É possível distinguir o que é improviso do ensaiado durante a peça?

Os diálogos são na maioria previamente ensaiados. Mas o trabalho é justamente, encontrar uma atuação que deixe sempre a dúvida se é ou não improviso. Se está acontecendo na hora, se é único e impossível de repetir.

C: Quais são suas principais inspirações para construir este espetáculo?

A continuidade da pesquisa. Alguns trabalhos de performance, alguns filmes, o livro “Passagens” de Walter Benjamin, no trabalho de Agamben, um pouco de
Bauman, e sempre o Paul Auster.

C: como foi a construção desta trilogia iniciada com “Conjugado”? Qual era sua intenção com este longo trabalho?

A trilogia foi casual. A cada montagem algo me movia e a pesquisa de linguagem se aprofundava. Estilhaçar algumas fronteiras também me incitava. Até onde é teatro? Onde começa a performance? O cinema? É cinema só na sala de cinema? Qual o lugar do público, do ator, da direção e do autor? Muitas perguntas, algumas respostas. As vezes, acho que está só no começo. Mas tem um fim?

 
FONTE: http://corteseco.com/tag/corte-seco/