Tião Lucena
A ALMA PENADA DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA
Deve ter algum malassombro escondido nos
cubículos da Assembléia Legislativa da Paraíba. Cada coisa
acontece lá! Primeiro foi aquele casal fazendo "aquilo" na
cabine de imprensa, local sagrado dos jornalistas. O sujeito
pegou a sujeita de jeito, deitou-a sobre a mesa onde
Barbosinha e João Costa elaboram suas noticias do plenário e
meteu-lhe a "caneta" chega a pobrezinha deu um urro de
alegria.
Passou-se o tempo, benzeu-se o local com sal grosso, mas
cadê que o malassombro saiu! Fez pior: botou uma gata com
seus gatinhos na casa de força da Assembléia, os gatinhos
miaram, a gata miou e a luz apagou bem no meio de importante
sessão, deixando os deputados no escuro, sem luz e sem
microfone.Foi um Deus nos acuda, dizem que o presidente
ficou tão irritado, tão irritado mesmo que ameaçou cassar o
mandato do eletricista. No final, sobrou para a gata e para
os gatinhos, todos mortos de choque elétrico.
O malassombro voltou a agir esta semana. Adiantou o relógio
do plenário, a sessão de quinta-feira não foi realizada
porque passou da hora e quando os deputados da oposição,
liderados por Gervásio Zangado Maia, apareceram, nem a
Margarida estava lá. E, não satisfeito com o adiantado do
relógio, a dita alma penada sumiu com o relógio do comitê de
imprensa, transformando os queridos colegas da comunicação
social em suspeitos por tamanha desfaçatez.
Inda bem que não virei o pai de santo anunciado por Zé
Euflávio, senão seria chamado,com certeza, para abordar a
alma a fim de mandá-la ao sossego do paraíso, como fez a
mulher de Sebastião Sebo quando combinou receber o mancebo
na sua casa enquanto Sebo viajava a serviço de Seu Mano,
botando o couro de bode na janela como senha para o livre
trânsito. Sebo voltou antes da hora, o visitante incômodo
não sabia, bateu na porta, Sebo se assustou, a mulher o
tranqüilizou dizendo que era alma penada e ela mesma
despachou a sobrenatural entoando o hino ensinado por João
Mandu:
Oh alma que
tá penando
vai pru reino
da gulóra
meu marido tá
em casa,
me alembrei
do couro agora."
(15-12-2008)
CRISPIM, O
APÓSTOLO DOS TEMPOS DE HOJE

Luiz Augusto Crispim viveu a vida intensamente e
soube morrer com rara dignidade. Ninguém escutou um
lamento seu, um choro, um protesto. A doença que o
dizimou foi enfrentada de cabeça erguida, sem um
resquício sequer de esmorecimento. Ao contrário, ele
soube cuidar de si e confortar os outros que, feito
ele, foram visitados pelo câncer atrevido.
Muitos se perguntam de onde Crispim tirou tanta
coragem. Eu tambem me perguntei, mas lendo, como lia
religiosamente, suas últimas crônicas, tive a
certeza de que ele se encontrou com Deus durante o
seu calvário. Se ele já vivia com Deus, como
suponho, nos últimos tempos de vida passou a
conviver mais intensamente e quem com Deus convive
não só aprende a enfrentar a morte, aprende a
vencê-la.
E Crispim venceu a morte. Sua passagem foi apenas
uma mudança de lugar. Da morte ele não sentiu medo,
porque só o ateu a teme, pela incerteza do que vai
encontrar depois dela.
As crônicas de Crispim eram poesia pura. Ele falava
das flores, da natureza, dos passarinhos, dos vivos
e dos mortos de um jeito diferente, colorido,
rimado. E quando adoeceu gravemente, passou a falar
de Deus de uma maneira enternecedora, comovente e
convincente.Discorria sobre os Salmos com a graça de
um Davi e repetia os Evangelhos, principalmente o de
João, o querido de Jesus, com a pose de um
evangelista do nosso século. Ele deve ter levado
muita gente para o lado bom de Deus, mesmo sem saber
ou sem ter tal propósito.
Muitos dizem que o homem só é bom depois de morto.
Não é não, meus amigos, se ele não deixar obras,
exemplos, dignidade e sabedoria,ele pode passar
dessa para a outra sem ser sequer notado. Alguns são
lembrados pelo mal que fizeram, pelas intrigas que
espalharam e como ponto de referência àquilo que não
deve ser imitado.Luiz Augusto Crispim será lembrado
por aquilo de bom que soube plantar.
Crispim foi diferente. Foi amigo, foi poeta, foi
escritor, foi acadêmico, foi jornalista, cronista
dos melhores e, por último, Apóstolo de Jesus
Cristo, um apóstolo dos dias derradeiros a dizer aos
apressados que se julgam donos da verdade que a
verdade verdadeira está onde sempre esteve: ao lado
de Deus, o criador do céu,da terra e de todos os que
nela habitam.(08-12-2008)
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JORNALISMO "RON MONTILA"
Acho incrível como o jornal Correio da Paraíba, tão
independente, tão forte e altivo, tão mais jornal do que os
outros jornais da terrinha, não dá uma vírgula de notícia
sobre aqueles incontáveis processos que Roberto Cavalcanti
carrega nas costas. Por que será? Faltam repórteres ou o
sistema carece de oiças para ouvir e zóios para olhar?
Como ter o atrevimento de dizer que faz jornalismo com ética
e paixão se, na hora de noticiar, só mostra um lado e
esconde o outro debaixo do tapete?
O bom jornalismo se faz mostrando tudo, não só um pedaço, a
beirada da calcinha, o "toicinho" de antigamente. Fazer
jornalismo, segundo me ensinaram os mestres de outrora, é
exibir os dois lados da moeda. Mas no jornal Correio e nas
rádios que compõem o sistema só aparece um lado, o da
conveniência dos donos.
Não vi, por exemplo, o Correio dar uma vírgula sobre aquele
pronunciamento do senador Artur Virgílio, de que vai
enquadrar Roberto Cavalcanti no dia em que ele tomar posse,
se é que vai tomar. Se não fossem os outros órgãos de
imprensa, o discurso de Artur ficaria barroando nas paredes
da mouquice.
E esse negócio de nomear Lena Guimarães como secretária de
Comunicação Social de um provável Governo de Zé Maranhão me
faz ter arrepios. Não que Lena seja imerecedora de tamanha
honra, pois sei que ela é capaz, é inteligente, é uma grande
jornalista e vai dar show onde chegar. Não é isso. É que
esse fato compromete ainda mais a ética e a paixão do
Correio da Paraíba. Significa dizer que o sistema terá
espaço e dinheiro no Governo que se anuncia, deixando os
outros órgãos de imprensa somente com o sobejo, a sobra, o
resto.
Sei que gente de fora lerá estas mal traçadas linhas e,
sabendo, informo aos que nos conhecem de longe que na
Paraíba se faz imprensa capenga, de um lado só, cega feito o
pirata do Ron Montila, e que são os jornais simpáticos ao
poderoso da hora que nomeiam e demitem secretários de
comunicação.
Leio diariamente o Correio e o faço porque nas suas páginas
desfilam Helder Moura, Luiz Augusto Crispim, Rubens Nóbrega,
Josival Pereira e Abelardinho Jurema. Só por isso leio.
(01-12-2008)
Já está nas
ruas a lista dos secretários de Maranhão

Já
circula na Paraíba suposta lista com nomes de secretários e
integrantes do segundo escalão, que teriam sido convocados
pelo senador José Maranhão (PMDB). O peemedebista deve
assumir o Governo do Estado assim que for publicado acórdão
do Tribunal Superior Eleitoral.
O senador José Maranhão continua em Brasília e a expectativa
é que só retorne à Paraíba quando estiver liberado para
assumir o Governo do Estado.
Veja a lista:
Luciano Cartaxo – PT (Vice-governadoria)
Sales Gaudêncio (Educação e Cultura)
Lafaiete Gaudino (Finanças)
Oto Marcelo (Controladoria Geral)
Rosevlet Vita (Casa Civil)
Vital do Rego (Administração Penitenciária)
Coronel Francisco (Comando da PM)
Salomão Gadelha (Cagepa)
Marcelo Weick (Procuradoria Geral)
Lúcia Braga (Assistência Social)
Wattaeu Rodrigues (Sudepar)
Emília Correia Lima (Cehap)
Edmilson Fonseca (Chefia de Gabinete)
Carmésia Maranhão (Desenvolvimento Humano)
Lenilson Guedes (Rádio Tabajara)
Especula-se ainda que o nome do novo secretário da pasta de
Comunicação Social será indicado pelo Sistema Correio de
Comunicação. Para as secretarias de Esporte, Turismo,
Segurança, Saúde - pastas de grande representatividade
política e de orçamento - ainda não foram cogitadas
indicações.(24-11-2008)
DANIELA,
POBRE DANIELA!
Daniela era uma menina franzina, como franzina são todas as
meninas desnutridas de nossa periferia. Morava na comunidade
Santa Bárbara, terra de gente pobre, sem eira nem beira e
sem direito a sonhos. Faz um ano, todos se lembram, Daniela
foi estuprada, degolada e queimada em Jacarapé. Os bandidos
tiraram sua inocência e, não satisfeitos, tiraram também sua
vida. Mas a via crucis de Daniela não terminou ali.
Os peritos do IML levaram-na para o exame de Necropsia. Lá,
entenderam que também se fazia necessário o exame de DNA.
Somente depois disso tudo é que os pais de Daniela teriam
seu corpo para o sepultamento. Aos pais, pobres na forma da
lei, não restou outra alternativa senão a da espera, que foi
longa.
Faz um ano que Daniela dorme na geladeira do IML de João
Pessoa, sem poder ser enterrada, sem direito a um cruz como
ponto de referência para as orações da família. O exame de
DNA do IML só veio acontecer esta semana, no final da
semana, um ano depois.
Agora os pais de Daniela esperam receber seu corpo congelado
para enterrar no cemitério pobre da localidade onde moram.
Nem pensam mais na condenação de quem a matou. Se para fazer
um DNA demorou-se tanto, para se chegar aos autores da morte
da menina pode botar tempo. Melhor se conformar com o corpo
que sai da geladeira. Já é muita coisa para quem está
acostumado a nada ter.
Dizem que o DML da Paraíba é o mais bem equipado do
Nordeste. Imagine se não fosse. Bem equipado como é demorou
um ano para fazer um DNA num corpo defunto, se fosse mal
aparelhado demoraria uma existência inteira.
Mas os pais de Daniela estão conformados. Anseiam pela
liberação do que restou. Isso já é muito para quem nada tem.
Pertencem ao batalhão dos esquecidos, dos injustiçados, dos
famintos, dos descalços, dos sem esperança, dos quase sem
vida. A eles foi dado o direito de ocupar apenas o espaço e
olhe lá. Não podem bradar, não podem reivindicar. Os
deputados da Assembléia que bradam e se esgoelam contra as
invasões às casas dos jornalistas que lhes promovem os
nomes, não falam da Daniela esquecida na geladeira do DML.
Daniela não dá ibope. Os pais de Daniela idem. Quando muito,
votam. E para conseguir o voto deles não dá trabalho. Basta
um corte de chita, um quilo de fuba, uma gorjeta miserável.
O pai de Daniela ganhou espaço numa televisão esta manhã. O
caso da menina foi, no mínimo dos mínimos, curioso e chamou
a atenção. E quando o repórter perguntou o que achava
daquilo tudo, ele simplesmente resumiu o drama e as
consequências nessa frase singela: "Esperar o que, moço? Nós
somos pobres".(17-11-2008)
OS BABA OVOS DE GRAVATA E LANTEJOULAS
Gostaria de ver os deputados Gervásio Maia,
Francisca Mota, Trocoli Júnior, Vitalzinho do Rego e outros
cujos nomes fogem da cachola neste instante enluarado de
escritas malajambradas fazendo discursos e prestando
solidariedade a Belmiro do Geisel, a Zé de Chumbinho e a
outros menos notados que são assaltados diariamente na
Paraíba, perdem o patrimônio, a honra, a virgindade das
filhas, a fidelidade das mulheres e muitas vezes as próprias
vidas, porém não ganham o ibope que ganhou o companheiro
Marcelo José, da Rádio Correio da Paraíba. Não que Marcelo
seja imerecedor da atenção, do carinho e do afago dos
deputados. Ele é merecedor e com louvores até. Mas os outros
também o são e não recebem, sequer em dosagem mínima, os
discursos empolgados, empolados e enrolados desses chamados
homens públicos, talvez porque não disponham, como Marcelo
dispõe, de um microfone para falar e das oiças de milhares e
milhares de ouvintes para ouvir.
Os bandidos invadiram a casa de Marcelo, botaram revólver na
cabeça dele, maltrataram inclusive seu filho de braço e isso
revolta. Mas também revolta o que acontece na periferia de
João Pessoa com os desprezados da sorte, metralhados e
chacinados pelos homens da moto preta. Acontece que não se
fala nesses últimos, a não ser para mero registro
estatístico nas colunas policiais. O nêgo Eudes levou seis
tiros na caixa dos peitos enquanto descansava da dureza do
trabalho na porta de casa em Mandacarú. Ninguém fez
discurso, ninguém prestou solidariedade a viúva, sequer
consolou os três filhos de colo que ficaram na orfandade.
Onde estavam os deputados? Onde se escondiam os vereadores
que ontem, na carreira em busca de manchetes, pediram a
cabeça do secretário Eitel Santiago?
Que a cidade está insegura todo mundo está careca de saber.
A cidade e o Estado inteiro. Assaltos acontecem até na
longínqua Princesa, até bem pouco tempo um oásis de paz. Só
que os chamados homens públicos só tomam conhecimento
daquilo que as suas conveniências mandam. Se o assaltado é
uma figura pública, principalmente jornalista de renome,
então tome discurso, tome solidariedade, tome abraços e
achegos. Tudo falsidade. Soube que na casa de Marcelo o que
mais tinha era coronel estrelado no dia do acontecido. Até o
coronel Francisco estava lá, com seus galões, sua fala mansa
e a pose para ser fotografado. Na casa do nêgo Eudes (sempre
ele), nem o Cabo Modesto apareceu. A viúva adoeceu e até
hoje padece em cima de uma cama, precisando de ajuda para
trocar a calçola mijada. Uma tristeza.
E esse negócio de querer transformar o triste episódio de
Marcelo em caso pensado, em intimidação, em vingança por
conta de sua brava atuação como paladino da justiça, é de
lascar o cano. Ora, minha gente, tudo tem um limite. A
cidade está violenta. Matam gente na porta do shoping,
assaltam frequentadores de restaurantes, intimidam fiéis em
portas de igreja, trancam funcionárias da Oi em quarto de
hotel, mas somente o caso de Marcelo vira vingança política,
intimidação para calar a voz daquele que grita por liberdade
e justiça. Vamos parar por aí, vamos colocar um limite nessa
paranóia. Marcelo ainda está de fraldas na caminhada
jornalística. Não tem o status de um Rubens Nóbrega, de um
Helder Moura e de um Roberto Cavalcante, que, por sinal, não
receberam em suas casas a espada vingadora do criticado e
denunciado.
O que aconteceu com Marcelo acontece todo dia com o Antonio
de Terta morador do Grotão. Ele teve o azar de encontrar
pela frente os bandidos insaciáveis, do mesmo jeito que
aconteceu, por exemplo, com a minha sobrinha Elida em dias
da semana passada, parada por dois motoqueiros na entrada do
Altiplano, ambos armados e ameaçadores, que só não a
assaltaram e fizeram misérias com ela porque minha sobrinha,
num assomo de coragem, passou o carro por cima dos
assaltantes. (10-11-2008)
A VINGANÇA DE DIVANI PINTO
Manoel Leite, ex-prefeito de Tavares, mandou
apagar o assassino do seu filho lá dentro do Serrotão e
nunca pagou por isso. Morreu de velho. Esse negócio de
vingança dentro de cadeia é coisa velha, de somenas. Todo
funcionário de presídio sabe disso e alguns compactuam.
Trabalhei 10 anos como Procurador da Secretaria da Cidadania
e Justiça e o que mais via era agente enrolado em casos
assim. Até um livro escrevi sobre o assunto, um livro que
falava também de torturas, de propinas e outros casos que
testemunhei, envolvendo presos e figurões, mas que não
publiquei porque amigos do peito, ao lerem os originais,
desaconselharam a publicação: "Se tu publicar isso aí, é
morte certa", disse-me um deles, dos mais caros. Por isso
guardei os originais. Estão à sete chaves.
O confrade Anco Márcio, meu espelho em jornalismo, aquele
que despertou dentro de mim a vontade de escrever em jornal
a partir de uma crônica dele que li num onibus lá em Patos
das Espinharas, disse muito bem do caráter de Divani Pinto,
a ex-delegada apontada como bandida por ter praticado o
gesto da vingança, tão comum nos sertões de Itaporanga, onde
nasceu e de Princesa, meu lugar. Também conheci Divani nas
delegacias, durona, valente, inteligente, desvendando crimes
cabeludos, impondo respeito apesar de pequenina, sozinha no
meio de um monte de machos que, apesar de grandões, lhe
batiam continência. Pelos relevantes serviços prestados ao
Estado ganhou uma aposentadoria e a condição de ex. Foi
advogar na área criminal, ganhou clientes e continuou
respeitada, até que apareceu um diretor de cadeia metido a
galo cego, preparando-lhe uma armadilha. Nem digo que foi
montagem como quer o seu advogado. Acho mesmo que Divani deu
o frasco para o detento queimar a rodela dos assassinos do
seu marido. Eu também faria o mesmo se alguém matasse minha
mulher ou algum dos meus.
Só que a coisa não se consumou. Foi somente tentativa. E por
causa de tentativa não vi ninguém ir preso. Conheço gente
que virou herói porque tentou matar a tiros um rival em
lugar público. Porque tornar bandida uma mulher honesta,
trabalhadora, que, inconformada com a viuvez precoce, quis
usar a lei de Talião? Atire a primeira pedra quem não tiver
pecado. Você, que defende o bandido, espere o bandido agir
na sua casa para ver se continua mantendo o mesmo ponto de
vista. (03-11-2008)
O DESTINO DA MILITÂNCIA
A militância política, aquela que também é
chamada de rafaméa, mundiça, cheira ovo, burro de carga e
chaleira, deveria atentar para um detalhe para ver se vale a
pena continuar se matando feito soldados em plena guerra:
depois de eleito, seu líder o convida para alguma coisa?
Convida não. Nem para a festa da posse, que é comemorada em
ambiente fechado, de acesso restrito e vigiado, só entrando
lá quem tem senha ou convite por escrito.
Durante a campanha o candidato é povão. Depois dela, povo
chique. Sempre foi assim e sempre será.
Lembro que quando certo governante foi eleito, ele que assou
a bunda andando na cacunda de Naná Montenegro, comemorou num
sobrado medieval ao lado de um restrito e selecionado
público. Mas não foi só ele não, os outros também, todos
eles, sem tirar nem por.
O militante é o idiota que troca tapas, facadas, dá e leva
tiros, se rasga no meio da rua, perde a mulher, leva
chifres, vai preso, carrega bandeiras e faixas pelas
passeatas, recebe dedadas naqueles lugares misteriosos,
esquece de comer, perde o emprego por abandono, mas só tem
serventia durante a campanha. Depois dela, vira coisa
imprestável, lixo, sucata.
Vendo esses militantes de Campina Grande decretando
verdadeira guerra no meio da rua, fico a imaginar o destino
deles, dos dois lados, a partir de segunda-feira. Vão todos
ser esquecidos. O vencedor e o perdedor, ambos na vala comum
dos descartáveis, enquanto os lá de cima, os alvos de suas
idolatrias, cuidarão de se arrumar, empregando em postos
chaves aqueles que financiaram as suas campanhas e tratando
eles próprios de ajeitar a vida da família, porque de bêstas
não têm nada.
Eu já fui do time dos idiotas. Lá no meu sertão carreguei
faixas e bandeirolas para certo candidato, fiz passeata, até
comícios, mas quando viajei para a cidade grande e procurei
um achego no poder dele, recebi de volta uma banana. Aprendi
depois de algumas cabeçadas que não vale a pena se matar por
politico. A maioria, 99,9 por cento calça 40. O bom mesmo é
mangar deles, dizer que vota num e não vota em nenhum. Eles
nos enganam a vida toda, portanto merecem ser enganados
também.
Uma vezinha ao menos.(27-10-2008)
O DESFILE DOS ELEITOS E A COMPRA DE VOTOS
Os coleguinhas do rádio promoveram durante a
semana um comovente desfile de vereadores eleitos, em seus
programas, para agradecerem penhoradamente os votos
democráticos em nome deles depositados pelos eleitores
conscientes de nossa cidade. Parece até que não havia outro
assunto a comentar. Parece até que não tinha importância a
crise econômica, a sauna gay contestada pelo arcebispo, o
funcionário do TCE morto porque saiu de casa para dar o
quinca em Jacarapé, o segundo turno em Campina Grande e
outros temas polêmicos que enfeitam e enfeiam a nossa
paisagem.
Quanta dignidade ostentada pelos senhores
representantes do povo! Diziam, do alto dos microfones, que
foram eleitos porque representavam as mais altas aspirações
da população, e ainda aproveitavam para espezinhar sobre os
derrotados, afirmando que foram punidos pelos eleitores
porque ficaram contra o grande prefeito Ricardo Coutinho.
Até estranhei, porque entre os derrotados estão amigos do
peito do prefeito como Tavinho Santos, Fuba, Paula
Francinete e Marcone Paiva. Ou seriam amigos da onça?
Bonito mesmo foi ouvi-los condenando a compra de votos. Ali
estavam verdadeiros representantes da ética e da moral.
Nenhum comprou voto. Só quem comprou foi Felipe Leitão,
escolhido como “bode respiratório” pelos falsos moralistas
da política. Escutando-os, nem acreditei naquele ouvinte que
ligou para a Rádio Sanhauá e jurou de pés juntos ter
avistado Gerson Gomes, Hiltinho Souto Maior, Pedro Coutinho,
Fernando Milanez e um tal de Mangueira botando preço nos
votos dos eleitores da Cidade Recreio em plena madrugada de
domingo. Mentiroso. Como pode se levantar tamanho falso?
Esses homens citados pelo ouvinte são a reserva moral de
nossa política. Nunca compraram um voto. Jamais, jamé. Só
quem compra é Felipe Leitão, o “bode respiratório”.
Falando nisso, vejo na net que o juiz Aluizio Bezerra mandou
a polícia federal abrir inquérito para apurar a compra de
votos. Sendo a polícia federal, fica de bom tamanho, pois a
PF não investiga em cima de hipóteses. Vai em cima de
provas, documentais de preferência. Aí quem não tiver bom
guardado, que se arranje como puder. Quem preparou listas de
eleitores, relação de brindes, de cestas básicas e
similares, pode esperar o fumo quente no rabo. O delegado da
PF não vai atrás de fuxico de comadres, de arrumação
promovida por gente que quer ver o circo pegar fogo para
tirar proveito. Só prova. Prova insofismável, noves foras as
besteiras.
Agora, para terminar: doutor promotor, tome tento, onde já
se viu delação premiada nesses casos de compra de votos?
(13-10-2008)
NAQUELE TEMPO É QUE ERA BOM
No tempo de antigas eleições eu gostava de
tirar bundão nas nêgas que desciam da Serra do Gavião para
comer carne de boi na casa de Seu Mano. Sim, senhor, naquele
tempo o candidato gastava dinheiro do bolso para dar carne
cozinhada com farofa ao eleitor. Menos mal do que hoje com
as proibições das leizes, que obrigam o eleitor votar de
barriga vazia. Bem dizia Chico Rolim, quando respondia ao
assessor sobre as "leizes" e garantia que elas eram "como os
alobisomens, a gente sabem que inxistem, no entrequanto num
hai".
O candidato não comprava o voto pura e simplesmente.
Investia. Em carne de boi com farofa, que era um
investimento seguro, com retorno certo, notadamente nos dias
seguintes ao do regabofe, quando o comedor voltava para casa
levando no bucho o estrume para sua horta. Era uma festa e
dela participei. Menino safado, comendo do boi, lambendo os
beiços e querendo mais, ainda mais aproveitando a fila para
esfregar as safadezas nascentes nas bundas carnudas vindas
da serra com cheiro de mato.
Seu Mano matava para mais de 15 bois na véspera da eleição.
A carne era cozinhada em tachos grandes, de ferro. A fumaça
que saia pela chaminé da cozinha de Maria Aurora chamava a
atenção. E o cheiro forte do tempero de Maria Mumbaça
deixava a turma com água na boca. Tinha gente que passava os
três dias anteriores ao pleito sem comer nada, somente para
deixar as tripas desimpedidas e prontas a receber aquele
manjar do céu. E tome carne, carne pura e com farofa. Tinha
alguns que dispensavam a farofa. Pra que farinha, que se
come todo dia a preço de tostões, quando tem carne maciça,
coisa rara, pudim de rico, produto que alguns conheciam
somente quando pegavam na peia na hora da mijada?
O pessoal dos Pereira também matava os seus bois e fazia seu
regabofe. Minininha cozinhava e chefiava a cozinha, Cícero
Bezerra fiscalizava a fila para evitar os que comiam e
repetiam a dose. Mas quem diabo conseguia fiscalizar tanta
gente?
Os mais espertos só votavam no fim do dia, quando não havia
mais tripa seca no bucho. Saiam da comilança com os buchos
azuis, soltando peidos e arrotos chocos, uns correndo para o
beco do colégio para despejar toletes roliços e amarelos,
outros passando mal, como passou Zé de Bií, cabra comedor,
primo de Luiz Mofeta, outro desgramado na arte de engolir
carne de boi. Zé de Bií chegou a desfalecer na calçada de
Genésio Lima. Os olhos vidrados, deram-no como morto. Foi
quando dona Inês lembrou-se de fazer um chá de boldo. Chá
feito, chícara encostada na venta de Zé, este mais morto do
que vivo sentindo o cheiro e ouvindo dona Inês aconselhar:
-"Beba, Zé, é um chazinho de boldo", e ele, quase sem fala,
balbuciando, a responder: "Cadê a bolacha?" (06-10-2008)
ÓLEO DE PEROBA NELES!
A política é a arte da senvergonhice. Bem que
dizem por aí que todo político calça 40. Calça mesmo. Viram
o que fizeram os 10 candidatos a vereador da chapa de Chico
Barreto? Foram correndo para os braços do prefeito Ricardo
Coutinho, deixaram o pobre Barreto sozinho chupando o dedo,
morrendo de raiva, carpindo a sua solidão, chorando de
saudade, doido pra ir também, mas não indo nem fondo porque
Ricardo não quer.
O que causou espécie mesmo, deixou-me espantado sem
acreditar no que vi, foi a adesão do cabo Shotenis. Cabo
Shotenis, todos lembram, é aquele famoso criador de casos do
Costa e Silva, que invadiu uma plenária de Ricardo e quase
quebra todo mundo no pau, exatamente por ser ferrenho
adversário do prefeito e não aceitar as aparições do alcaide
no seu terreiro. Cabo Shostenis, que segundo comentavam era
assalariado da Casa Militar do Governo somente para
tumultuar a administração do prefeito Ricardo Coutinho,
candidatou-se a vereador e eu o vi várias vezes na televisão
metendo a ripa em Ricardo. Pois ele aderiu também, entrou na
leva dos 10, agora é ricardista de quatro costados, o mais
desavergonhado de todos, o cara de pau, o pau ensebado com
óleo de peroba.
Se Ricardo faz bem em aceitar? Claro que faz. Ele está no
canto dele, quietinho, sem chamar nem oferecer. Os
oferecidos que cheguem perto, comam na sua mão, lambam suas
botas, cheirem suas bufas. Eles é que são os desmoralizados,
os políticos raparigas, os Judas dos trinta
dinheiros.Ricardo até ri, porque de uma porretada só
desmoraliza o time e extingue seu crítico mordaz, que agora
fica dizendo "ah, é, é?", como dizia aquele personagem da
televisão na falta de uma resposta imediata.
Ninguém se espante se até o dia cinco não ficar ninguém na
outra banda, sobrando somente o pobre do João Gonçalves com
aquela cara de Mané besta e seus caixões de defunto. A
tendência é essa. Todo mundo e a mulher de Seu Raimundo
estão vendo a maré pender para o lado do feioso e político,
como já dito, não gosta de se arrumar em quixó.
Ainda bem que existe o candidato Doutor Nulo para nos
socorrer.
(29-09-2008)
O TRIBUNO ZÉ GADELHA
Não
sei por quais motivos ninguém ainda inventou de escrever um
livro sobre o político Zé Gadelha, inclusive os filhos dele,
todos famosos, com mandatos de deputados e de juizes, além
do que é prefeito de Sousa. O velho Zé poderia virar livro e
livro dos bons, pois sua história política daria para tanto.
Num intervalo de quinze minutos ouvindo conversas sobre Zé
fiquei empolgado. Imagine se passasse o tempo necessário
para escutar todas as histórias, estórias e causos
envolvendo o grande líder político de Sousa e região!
Juntaram-se Eilzo Matos e Murilo Bernardo para conversar na
manhã de terça na sala da Associação dos Procuradores, aqui
em João Pessoa, e quando o assunto versou sobre Zé Gadelha,
eu não quís mais ouvir outra coisa. Só as coisas dele. E
alinhavei algumas, que repasso como sugestão a algum
escritor que queira biografá-lo.
Zé, conforme Eilzo e Murilo, animava sozinho um comício. Os
filhos puxaram a ele, mas o velho tinha mais veneno nos
dizeres. Anunciava que ia abrir a boca do saco ou quebrar o
pote para mostrar os ladrões de Sousa e adjacências que
havia dentro de tais recipientes e o povo só arredava do
comício quando o saco era aberto ou o pote quebrado.
Eilzo era uma espécie de calo do velho Zé. Certa vez, em
Santa Cruz, durante um comício, Eilzo acusou Zé Gadelha de
tomar o dinheiro do povo e por isso não merecia confiança. E
aconselhava: "Se ele chegar na casa de vocês, só deve ser
recebido na cozinha e olhe lá". No final de semana seguinte,
Zé Gadelha foi a Santa Cruz e, no comício dele, desabafou:
"Esteve por aqui um cabra safado chamado Eilzo Matos. Aquilo
é um cachaceiro, um "chora na rampa". É um cachorro e dos
pequenos, um cachorro de balaio". (22-09-2008)
O DIA EM QUE
VIREI RÉU NA MINHA TERRA NATAL
Mal desembarco em Princesa e encontro, a me esperar, um
circunspecto jovem, vestido a caráter com a jaqueta da
Justiça Eleitoral, para citar-me como réu em ação movida
pelo prefeito Thiago Pereira, do PMDB. Recebo a ação e vejo
que tenho 48 horas para apresentar defesa. Fico a imaginar,
antes de ler a petição do prefeito, qual horroroso crime que
cometi, capaz de justificar aquilo. Roubar, não roubei,
disse logo. Tampouco cometi crime eleitoral, já que nem
candidato sou. O melhor é ler. E li. E vi que o prefeito me
processou porque divulguei, no Blog do Tião, uma
despretensiosa pesquisa de opinião pública, onde ele aparece
em segundo lugar, mas bem perto do outro candidato que está
na frente, José Nominando.
A peça é assinada pelo secretário de Educação do Município,
doutor Clodoaldo, que, estranhamente, trabalha para a
coligação do prefeito sem sair da Secretaria, ou seja,
recebe dinheiro da Prefeitura para atuar como advogado de
uma coligação partidária.
Segundo contou o advogado Valter Djones Rapuano, o doutor
Clodoaldo fez questão de assinar a ação contra mim porque,
segundo ele, eu lhe devo uma conta. Não sei que conta é
essa, até porque dela não fui cobrado. Tampouco o SPC mandou
notícias da dita cuja. Procurarei conhecê-la no momento
oportuno. Importa agora falar da ação.
Diz a peça acusatória que publiquei pesquisa não registrada
em cartório. De fato. Era uma pesquisa para consumo interno,
feita por encomenda de alguém que queria conhecer a
realidade eleitoral de Princesa. Tive acesso e permissão
para publicar num blog doméstico como o meu, mas juro que a
intenção não era a de prejudicar candidato A ou B. Para mim
tanto faz como tanto fez ganhar Zé Nominando ou Thiago
Pereira. Nem voto em Princesa! Mas o prefeito, ou quem faz
suas vezes, não entendeu assim e moveu o processo. Ali ele
pede a imediata retirada da pesquisa do blog e que eu seja
multado em cem mil ufirs. Cem mil ufirs, a preço de hoje,
somam mais de 100 mil reais. E eu não tenho esse dinheiro.
Se for condenado, terei que empenhar a mulher, os meninos, a
cachorrinha, a bicicleta, as panelas, as frigideiras, os
caldeirões e um pinico de ágata presenteado por João França
como indenização pelos tempos em que trabalhei para ele como
locutor de bingo. O bicho já está meio fuçado de tanto ver
tolete e boga, mas pode servir como peça indenizatória.
Vou aguardar o julgamento. O juiz de Princesa já demonstrou
ser um magistrado justo e imparcial. Tenho certeza de que
ele saberá separar o joio do trigo. Ele, sem muito esforço,
há de ver que a ação movida contra mim é mais uma peça
político/intimidatória do que uma busca de justiça para
corrigir uma injustiça.
Aviso, porém, que fui desafiado e não costumo fugir de um
enfrentamento. (15-09-2008)
CANDIDATO É O QUE NÃO FALTA NESSAS "ZINLEIÇÕES"
Na campanha política vale tudo, até
desenterrar defunto. João Gonçalves, candidato a prefeito,
botou o retrato do pai que já morreu e disse que o
homenageava. Longe de mim duvidar disso, mas ele lembrou do
velho somente depois que o velho está longe faz tempo. Um
certo Marcos botou o Jaburu do pai dele em letras garrafais
no retrato que enfeita sua propaganda. Ele não vale muita
coisa, percebe-se, o que vale é o Jaburu que já foi vereador
muitas vezes e o sobrenome serve para alavancar o nome.
E os apelidos, então, são uma graça. Zezito dos Carimbos,
Chiquinho da Gelada, Maria Doida de Mangabeira, Ontoim Xofer,
Geraldo da Associação, Fernando dos Correios, são alguns que
ilustram a vasta lista de pleiteantes a uma cadeira na
Câmara Municipal, sem contar com as estrelas já consagradas,
tipo Zezinho do Botafogo e Negão do Café.
Isso me faz lembrar o candidato Seu Dé, lá de
Patos. Numa dessas campanhas Seu Dé contratou um magote de
moças e com elas saiu em passeata pelo bairro de São
Sebastião. Era ele na frente e as mocinhas, cada uma com sua
bandeira, gritando atrás, num coro ensaiado: "Seu Dé, Seu Dé,
Seu Dé", ao mesmo tempo em que a turma do outro lado
respondia, como se fosse uma segunda voz a fazer compasso
com a primeira: "Eu como, eu como, eu como".
Mas não pense o leitor que os nomes ditos diferentes e
engraçados são uma exclusividade da Paraíba. Fui buscar em
Rondônia, por exemplo, os candidatos Maria do Pai da Mata,Silvin
do Jerico, Dona Ana do pé de galinha, Diamante Negro,
Mostrinho da Ceron, Carlin Paneleiro e Painho da Separadora.
De Fortaleza me chegaram Albirato,Bruno Teté,Totó, Corró do
Carvão, Mica, Biduca, Pedrinho Fogo Puro, Elton Babú,
Figueiredo Bichão, Santinho do Multirão, Dj Cabide, And By
Rio,Lugon o Bom Malandro, Abracadabra, Pelé do Detran,
Carlos Azedinho, Elio do Ovo e Amaral Borracheiro.
Lá em Vila Velha, estão disputando a eleição Bidinho, que na
propaganda pede “Seja sabidinho, vote no Bidinho”,Celso da
Loteria, que não garante o prêmio da Mega-Sena, mas se diz o
palpite certo para ocupar a Câmara, o candidato Maradona
promete, caso seja eleito, bater um bolão no Legislativo
municipal, Tadeu dos Jovens, drag queen hica Chiclete, que
apesar de levar a vida na brincadeira promete fazer um
trabalho sério se for eleita para a Câmara municipal,
Alvinho do Milho Verde, Candinha da Jodima, Mamãe, Baiana da
Dengue e Damião, catador de papelão.
Já o TRE de Rondônia registrou os candidatos Catiça do
Sindicato, Norberto Two Brother, Fúria, Sabiá e Xerife.
vereador.
Até no Paraná, que se pensava não existir apelidos,
apareceram os candidatos Fome, Flanelinha do Ayrton Senna,
Piska Piska, Quem Quem, O Chato, Indignados, Touro Bandido,
He-Man, Papai Noel, Biscoito, Chinelo,Piu-Piu, Tucunaré,
Melão, Alicate, Jacaré, Riquinho, Xeroso, Tranqüilo, Sem
Terra, Ninguém, Bola, Churros, Banha, Zebrinha, Espeto,
Penta, Lua, Pipoca, Bolinha, Borracha e Coxinha.
E eu paro por aqui para não endoidecer ainda mais o juízo do
eleitor. (08-09-2008)
PREFEITURAS TORRAM DINHEIRO DA SAÚDE EM
SAUNAS E FORRÓ
Dona do terceiro
maior orçamento na Esplanada dos Ministérios, parte dos
recursos do Ministério da Saúde repassado a prefeituras
municipais foram sucumbidos a fins não tão nobres quanto
garantir o bem-estar da população. Prefeituras espalhadas
por todo o território nacional desviaram ilegalmente cerca
de R$ 70,3 milhões entre 2003 e 2007. Os gastos referem-se
a, por exemplo, despesas com bar, yôga, cachê de banda,
cartão de Natal, tarifa de cheque especial e multas de
carro.
A análise dos 1.341 relatórios sobre municípios fiscalizados
pela Controladoria-Geral da União (CGU) nos últimos cinco
anos revela que houve pelo menos 1.105 episódios em que
prefeitos utilizaram recursos públicos destinos à saúde para
outros fins. Os dados foram tabulados pelos jornais Correio
Braziliense e Estado de Minas e integram uma série de
reportagens especiais sobre a corrupção na saúde pública,
veiculada pelos dois jornais.
A Controladoria não possui um levantamento próprio sobre
recursos desviados de atividades na área de saúde. Por meio
da assessoria de imprensa, o órgão esclarece que não possui
um número certo para constar como prejuízo e adverte sobre o
perigo de mensurar as perdas com o desvio de recursos na
área de saúde, o que pode remeter a erros. De acordo com a
CGU, para quantificar os prejuízos é preciso uma análise de
vários fatores, o que torna a operação embaraçada.
De verduras a
guloseimas
Outras aquisições e serviços pagos com recursos federais da
saúde foram verduras, chocolates, notebook, conta de luz,
gasolina, ar-condicionado e xerox. Em alguns casos, os
desvios ocorreram para cobrir buracos no orçamento, já em
outros, serviram apenas para financiar momentos de lazer.
Pelo menos 55,9 milhões, liberados pelo Ministério da Saúde
para obras de ampliação da rede física de assistência
médica, abastecimento de água, esgoto e construção de
banheiros, foram absorvidos por prefeitos e empresários, que
montaram processos de contratação de empresas em todo o
país.
Empresas fantasmas ou sem registro na Receita Federal foram
declaradas vencedoras em licitações. As notas frias também
foram utilizadas como forma de beneficiar parentes, amigos
ou o próprio bolso. Ao identificar as irregularidades, a CGU
orienta os municípios para que devolvam os valores. Todavia,
não recebe a garantia de que o pagamento será efetuado ou
mesmo que haverá a reaplicação do recurso.
A Região Nordeste, segundo os dados levantados, foi a que
mais fraudou licitações. Os desvios chegam a R$ 28,4
milhões. O Norte segue atrás, com irregularidades de pelo
menos R$ 9,5 milhões, já no Sudeste, os prejuízos estimados
são da ordem de R$ 8,7 milhões. O Centro-Oeste, por sua vez,
teve perdas de R$ 3,8 milhões.
As disparidades podem começar antes mesmo da liberação do
edital de concorrência. O documento é elaborado com o
direcionamento a uma determinada empresa, já eleita pela
prefeitura. Apresentando o preço menor ou não, a empresa
vence a licitação.
Neste caso, a Controladoria-Geral vale-se de um exemplo na
área de educação para ressaltar o cuidado com estimativas de
prejuízos decorrentes de desvios de recursos. Quando há, por
exemplo, um direcionamento em uma licitação para a
construção de uma escola para uma determinada empresa
ganhar, e a entidade vencedora de fato constrói a escola,
mesmo desviando recursos, como é possível fazer para
quantificar a perda? É uma irregularidade grave, segundo a
CGU, mas é difícil quantificar o prejuízo de uma escola que
foi construída.
Talvez o resultado dos prejuízos seria aproximado se o
caminho escolhido fosse saber por quanto uma outra empresa
teria feito a obra. Mas, segundo a CGU, são tantos pilares a
serem medidos que se torna difícil somar tudo. (01-09-2008)
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