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O
VELÓRIO
TEATRO - 2000 - Elpídio Navarro
CENA I -
(Sala da frente de uma residência, cujas janelas e porta,
limitam-se com a rua. Em cena alguns personagens, inclusive
um defunto, bem acomodado dentro de uma urna funerária,
enfeitada com flores. Poltronas, cadeiras etc., móveis
próprios de uma sala de visitas, de uma família de classe
média. Ao iniciar a cena, os presentes rezam, cantam,
choram, conversam, agem como num velório tradicional. De
repente a luz deverá ser atenuada de acordo com a
diminuição do volume das vozes dos presentes e da ação do
Morto
sentando-se
dentro do caixão, até ao silêncio e à escuridão, ficando,
apenas, o caixão iluminado. Noutro lugar do palco um foco.
Lula
entra, ligeiramente cambaleando, cantando:
LULA – “No
Sábado, realiza-se o meu desgosto,
Alguém
vai beijar o teu rosto,
No
lugar que eu já beijei.
Vais
casar-te contra a tua vontade
Vais
fazer-me esta maldade,
Por
qual razão eu não sei.
A
esperança, é a última que morre,
Cansa
aquele que muito corre,
Eu
ainda não cansei.
Vou
partir, carregando esse desgosto,
Nunca
mais beijo o teu rosto,
No lugar que eu já beijei...”
(Á medida que canta aproxima-se do
velório)
MORTO
–
(Sentado dentro do caixão, declama):
“Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do
zodíaco...” (Augusto dos Anjos)
(Ao começar a
declamação, Lula pára de cantar e fica ouvindo-a. O
Morto dirige-se a ele ao terminar a estrofe) -
Ei!
Você aí! Arranje um cigarro... (Lula pára, se
benze e vai saindo) - Espere! Não vá embora! Entre um
pouco, venha conversar comigo...
(Lula volta e examina melhor a sala).
LULA –
Varei-te! Estou bêbado mesmo! Te esconjuro!
(Vai saindo).
MORTO -
Espere! A um morto não se nega nada...
LULA -
Não se nega é para quem vai morrer ainda. De
quem já morreu o que eu quero é distância! Olhe, seja feliz
na sua morte e passe bem! Até mais ver... Devo estar com
delirium tremens!
MORTO -
Não vá embora. Estou tão sozinho...
LULA -
E eu delirando! Preciso parar de beber... (Vai saindo,
enquanto o Morto insiste).
MORTO -
Espere! Não vá! Ajude-me, por favor... (O
Morto volta a deitar-se. A luz sobe em resistência e
retorna o ambiente do velório, com as pessoas se
movimentando e falando, enquanto Lula
fica pasmo, esfregando os olhos, querendo
acreditar no que estava vendo).
HOMEM -
(Dirigindo-se à viúva)
O
finado era um homem de bem, temente a Deus e cumpridor das
suas obrigações. É com imensa tristeza que lhe apresento os
meus sentimentos, e de toda a minha família, pelo passamento
da seu estimado esposo!
VIÚVA -
Obrigado! (Chora
exageradamente e para de repente).
MULHER -
(À
viúva)
Foi a vontade de Deus! Com ela a gente tem que se conformar!
Eu sei o que a comadre está sentindo, pois eu também já
perdi o meu marido. Ele era um homem bom igual ao seu, mas
Deus também mandou buscá-lo. É por isso que esse mundo está
ficando cheio de gente que não presta... Os bons estão indo
servir a Deus! Mas pode contar comigo, comadre. Ficarei por
aqui para ajudar no que for preciso.
VIÚVA -
Obrigado! (Chora
exageradamente e para de repente).
VELHO -
(À
viúva)
O
seu semblante está calmo, sereno, quase risonho! Está em
paz! Deve ter morrido como um passarinho, sem grande
sofrimento... Foi de enfarte?
VIÚVA -
Não, foi cirrose. Morreu sentindo enormes
dores e vomitando uns pedaços de uma coisa preta, que eu não
sei se era sangue ou fígado!
VELHO -
Sei, ele bebia muito?
VIÚVA -
Não! O médico disse que foi
esquistossomose...
VELHO –
(Cortando) -
Também é bom. Mata do mesmo jeito! Em todo caso, meus
pêsames!
VIÚVA -
Obrigado! (Chora
exageradamente e para de repente).
MORTO -
(Levantando-se)
Puta que pariu! ( A luz cai em resistência, permanecendo
a iluminação do caixão, enquanto todos voltam a ficar
estáticos).
LULA –
(Ainda boquiaberto com a situação, resolve
falar com o
Morto)
-
Espere! Que arrumação é essa?! Esse povo é o que? Estavam
todos parados, de repente começaram a andar e a falar e
agora, novamente, viram estátuas! Está parecendo mais uma
peça de teatro!
MORTO –
E o que é a nossa vida senão uma peça de
teatro? Uma comédia com todos os seus erros, suas críticas e
tiradas engraçadas, suas alegrias e seus contentamentos? Ou
um drama pleno de amor, traição, falsidade, tudo com um
final feliz para alguém e sempre com infelicidade para
outros? Ou até mesmo uma tragédia onde o amor e o ódio
acabam destruindo vidas?
LULA –
(Aproximando-se) –
O senhor bebe?
MORTO –
Bebia ... Por que?
LULA –
Eu ia sugerir que o senhor saísse desse
caixão e fosse buscar alguma coisa para a gente beber. Mas
como o senhor não bebe mais... Deixou por que?
MORTO –
Estou morto, meu amigo! Já viu morto beber?
LULA –
Ih!... Agora complicou! O senhor quer mesmo
que eu acredite que está morto e eu estou aqui conversando
com um defunto?
MORTO –
Mas é a pura verdade! Quer que eu lhe prove?
Veja: eu vou deitar no caixão e todo mundo vai voltar a
falar e a se movimentar como estavam fazendo antes.
(Deita-se. Volta o velório. O velho aproxima-se de Lula,
e dirige-lhe a palavra).
VELHO –
(Referindo-se ao morto) –
O seu semblante está pesado. Deve ter sido uma morte
terrível! Dessas com enormes dores e sofrimentos...
LULA –
Eu não acho não! Prá mim ele nem morreu!
VELHO –
Eu entendo. Os entes queridos nunca morrem
para nós! Era seu irmão?
LULA –
Nada meu! É a primeira vez que eu vejo esse
cara... (Entra uma moça com xícaras de café numa bandeja
e oferece aos presentes. Lula
aproxima-se dela).
LULA –
Não tem uma bebidinha não? Se for aguardente
melhor. Pode trazer numa xícara mesmo, para não chamar a
atenção dos outros... (A moça nada responde e retira-se).
Será que ela vai trazer?
MORTO
(Sentando no caixão) –
Só se eu estiver deitado! (Lula
assusta-se, ao mesmo tempo que todos voltam à imobilidade) –
A Rosa deve estar também estática lá na cozinha, como estão
todos aqui na sala. Mas não se preocupe que assim que eu me
deitar ela vem com a sua bebida. Deve ser aguardente, porque
eu só podia tomar bebida destilada. E uísque você sabe, o
preço...
LULA –
Agora vamos nós! O senhor não quer que eu
acredite que está morto e que eu estou aqui, abestalhado,
conversando com um defunto, quer? Eu bebi, mas também não
foi essas coisas todas não! O senhor já me disse que é isso
mesmo, mas eu não posso aceitar essa história. E sabe o que
mais? Já estou entendendo tudo: isso deve ser uma dessas
pegadinhas que a televisão anda fazendo por aí. Mas eu não
caio nessa não! Vou já descobrir onde está o povo filmando!
(Começa a procurar no recinto uma possível câmera de TV.
Nada encontra. Toca nas pessoas e essas permanecem imóveis e
faz perguntas a elas, não obtendo respostas. Volta ao
Morto, que durante todo o tempo rir da situação) – O
senhor está rindo da minha leseira, não é? Está bem, não
consegui descobrir nada! Agora pode me dizer qual é o
truque, que brincadeira é essa...
MORTO –
Mas não é uma brincadeira, é realidade.
Aparentemente irreal, mas é real. Só isso!
LULA –
Se é real, pode ser mesmo uma brincadeira. Já
sei: uma peça de teatro que vocês estão ensaiando? Acertei?
Para ser mais preciso, uma tragédia, pois tem um morto, no
caso o senhor. Pronto! Pode desmanchar essa arrumação toda e
vamos tomar uma cachaça para comemorar o grande desempenho
de todos vocês! Parabéns!
MORTO – Calma! A cachaça vem. Mas primeiro,
seu... Como é mesmo o seu nome?
LULA – Luiz Carlos
Vasconcelos. O senhor pode me chamar somente de Lula!
MORTO – Pois bem, seu
Lula: não é peça nenhuma e se fosse não seria uma tragédia!
Seria, possivelmente, uma farsa, como o foi toda a minha
vida!
LULA –
Farsa?
MORTO – Uma forma de
teatro que critica, faz rir e pensar, através do ridículo,
do burlesco, da caricatura, zombando com as pessoas...
LULA –
Ah, sei!
Gozação!
MORTO –
Mais ou menos!
LULA –
Nesse caso
estão gozando comigo, não é?!
MORTO – Não é
isso, Lula! Isto aqui não é uma peça de teatro. É realidade!
Um tanto fantástica, mas é.
LULA –
Assim é
foda! O senhor quer mesmo me convencer...
MORTO –
Espere! Vou lhe explicar tudo: eu estou morto, você está
vivo; as outras pessoas que estão nesta casa também estão
vivas. Eu não queria morrer e continuo sem querer. Faço uma
força danada para sair desse caixão, mas não consigo. No
máximo, sento dentro dele. Então eu descobri que todas as
vezes que eu me sento, o pessoal daqui fica como se
estivesse paralisado, como numa fotografia, ou como se
tivesse quebrado a fita do cinema! Lembra como era, não é?
Aí ninguém me ouve, ninguém fala nada, ninguém se mexe e
então eu volto a me deitar e volta tudo ao normal. Quando eu
me deito começam a dizer coisas mentirosas ao meu respeito e
deles também. Não me contenho, volto a me sentar e a falar e
todo mundo pára. Quando estou deitado, não consigo falar. Só
ouvir. Quando estou sentado, falo mas ninguém ouve!
Entendeu?
LULA –
Direito,
não! E eu não estou ouvindo o senhor e andando e falando?
Heim? Pensava que me pegava, não era? Vamos! E agora?
Explique!
MORTO –
Esse é o problema! Não sei, não consigo entender! Aconteceu
que uma das vezes que eu sentei, você estava passando aqui
em frente, cantando e eu ouvia tudo e via você se
movimentando. Não consegui me conter e lhe chamei, pedindo
um cigarro que você nem chegou a me dar!
LULA –
Como, se
eu não fumo?
MORTO –
Eu
também não, isto é, não fumava. Pedi somente para puxar
conversa.
LULA –
Olhe,
seu...
MORTO –
José. José Maria de Souza.
LULA – Pois bem, seu
José Maria! Eu já fiz tudo para desenrolar essa situação na
qual o senhor me envolveu. A essa altura do campeonato, não
acredito que o senhor tenha uma cara de pau tão grande ao
ponto de continuar com isso tudo, se isso tudo é uma
brincadeira. Por outro lado, também não posso acreditar que
um defunto possa estar falando comigo, sentando no caixão,
declamando poesia...
MORTO –
Entendo que você esteja confuso, seu Lula. Eu também estou!
Embora falando a verdade, nem para mim é fácil acreditar no
que ocorre aqui. Mas é o que ocorre e não posso mudar as
coisas! Olhe, eu vou me deitar e você fica com toda a
liberdade de investigar a situação. Quando precisar, você me
chama que eu sento. Mas não vá beber muito não, para não
perder o tino e deixar de perceber as coisas.
(Deita-se. Todos os outros personagens
retornam à situação anterior).
ROSA –
(Entrando com a bebida) –
Aqui está, senhor. A sua bebida.
LULA –
(Pegando a xícara) –
Obrigado, moça.
ROSA –
Não há de
que. (Vai saindo para o interior da
casa e ao passar pela Viúva, é interpelada).
VIÚVA –
Senti o cheiro! Aquilo, naquela xícara é cachaça ,não é?
ROSA –
É sim,
senhora.
VIÚVA –
Mas
não foi da minha garrafa especial não, não é?
ROSA –
Foi da
garrafa que estava no armário.
VIÚVA – Ainda bem! Vá
limpar a geladeira. Jogue fora o que tiver de comida e
bebida por lá. (Rosa retira-se. Um garoto entra,
aproxima-se do caixão e beija a mão do Morto. A viúva
prontamente interfere) – Menino, não faça isso! Você
pode pegar a mesma doença do seu pai! (O garoto sai
chorando). Ora! Já se viu uma coisa dessa?!
LULA –
(Que estava bebendo a cachaça, aproxima-se
da viúva) – E de que o seu José
Maria morreu?
VIÚVA –
(Com má vontade) –
O médico disse
que foi cirrose. É uma doença que acaba com o fígado.
LULA –
Ah! Sei...
VIÚVA –
(Diante da reação de
Lula a viúva procura explicar) –
Mas não foi bebida! O pouco que
ele bebia não dava para fazer tanto mal. O médico acha que a
cirrose foi provocada por algum esquistossomo que ele
arranjou tomando banho de rio. Eu não sei não, mas bebida
não foi!
LULA –
Ah! Sei...
VIÚVA –
Ele
era um homem comedido, não exagerava em nada.
LULA –
Ah! Sei...
VIÚVA –
E o
senhor vai passar a noite toda repetindo esse seu Ah!
Sei..., é?
LULA –
Desculpe,
senhora! Só estava querendo concordar com o que a senhora
estava dizendo.
VIÚVA – Ah!
Sei... Com licença! (Afasta-se para outro canto da sala e
de rosário na mão, junto com os outros presentes, começa
a rezar. O Morto volta a
sentar-se e, conseqüentemente, acontece a paralisação).
MORTO – Então, seu
Lula? Está acreditando agora?
LULA –
Sei não...
Estou achando tudo uma maluquice.
MORTO –
Eu
também! E daí? O que vamos fazer?
LULA –
Ora, e
quem sabe sou eu? A casa é sua, a viúva é sua, essa cachaça
ruim é sua...
MORTO – Era! Estou
morto! Não tenho mais nada.(Tempo) - Espere, traga
aqui essa cachaça para eu olhar. (Lula atende a
solicitação. O Morto oscila a xícara e exclama) –
Papuda! Porra, a Rosa trouxe da pior que existe! Faça o
seguinte: vá lá na cozinha, abra a geladeira e numa garrafa
dessas de botar água para gelar, tem coisa melhor. Aproveite
que está todo mundo parado, ninguém vai notar nada...
LULA –
Agora
mesmo! (Sai em direção ao interior
da casa).
MORTO –
(Depois de algum tempo, começa a declamar):
“Como um
fantasma que se refugia
Na
solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta! (Lula
volta e fica a ouvir a declamação).
Fazia frio e o
frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta...
Cortava assim como em carniçaria
O
aço das facas incisivas corta!
Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E
eu saí , como quem tudo repele,
-- Velho caixão a carregar destroços --
Levando apenas na tumbal carcaça
O
pergaminho singular da pele
E
o chocalho fatídico dos ossos!”
LULA –
Que
negócio mais cavernoso! Virgem Maria!
MORTO – “Solitário”.
Soneto do grande poeta brasileiro Augusto dos Anjos! Para
mim, o maior poeta de todos os tempos!
LULA –
Dá
certinho com essa situação aqui!
MORTO –
E
aí? Achou a caninha?
LULA –
Achei!...
Já está aqui na minha xícara, para camuflar, não sabe?
MORTO –
E
que tal essa?
LULA –
É da boa!
(Experimentando) – Ela tem um gostinho esquisito lá
no fim! Outra coisa: tinha uma carne picada dentro de uma
gosma grossa. Feia, mas gostosa! Eu também peguei um pouco!
MORTO – Tudo bem! Era
o meu strogonoff. Uma comida russa. O resto da família é
mais chegada a uma feijoada!
LULA –
E agora
quem pergunta sou eu: o que vamos fazer?
MORTO –
Eu
estive pensando: vamos aproveitar essa situação e nos
divertir um pouco? Quem não se diverte nessa vida, na outra
serve de diversão!
LULA –
Por falar
nisso, como é que é o lado de lá, essa outra vida, o que
acontece depois da morte? O senhor já está experimentando,
não é?
MORTO –
E
eu sei lá! Não estou experimentando nada! Estou aqui. Eu nem
acredito que exista outro lado!
LULA –
É... Isso
é! E como vai ser quando chegar a hora do enterro?
MORTO –
Também não sei. Em último caso eu me sento e começo a ler em
voz alta a Ilíada, a Odisséia, os Lusíadas e as obras
completas de todos os poetas brasileiros de hoje e de
antigamente! Todo mundo vai ficar parado e nada de enterro!
E por falar nisso, preciso que você pegue uma porção de
livros lá no meu quarto e esconda aqui no caixão.
LULA –
Agora?
MORTO –
Não
tem pressa. Só quando amanhecer é que eles poderão fazer o
enterro. E você? Vai fazer o que a essa hora da noite?
LULA –
Bem, para
mim duas saídas: ir embora para casa ou arranjar um lugar
para dormir por aqui!
MORTO –
Certo! Fique com a segunda saída. Mas antes vamos brincar um
pouco. Tenho uma idéia, aproveitando essa coisa que acontece
quando eu me deito e quando eu me sento. É o seguinte: você
me tira do caixão e me colocada no chão, aí no meio da sala;
depois você entra no caixão e se deita...
LULA –
O senhor
está é doido! Eu vou bem brincar com esse negócio de morte?
Eu posso ser castigado!
MORTO –
Não
tem nada disso! É só um brincadeira! Imagine: você dentro do
caixão e eu deitado no chão. Vai assombrar todo mundo! Vai
ser engraçado! Depois a gente troca de situação, aí é que
eles não vão entender nada. Vamos, meu amigo. Você vai
gostar, tenho certeza.
LULA –
Mas é
pouco tempo, ouviu? Senão eu saio do caixão e vou embora
daqui.
MORTO –
Certo. Não se preocupe.
LULA –
Então saia
logo daí.
MORTO –
Já
lhe disse que não posso. Da cintura para baixo eu não sinto
o meu corpo.
LULA – Ainda bem que o
senhor não é muito gordo... (Pega nos braços o morto e
vai baixando ele até ao chão. O Morto está de cueca
samba canção, de camisa, gravata e paletó) – Engraçado!
Suas pernas estão geladas, enquanto que as suas mãos estão
quentes...
(Apavorando-se) – É um morto vivo!
(Já estando bem próximo ao chão, larga o morto que cai
sentado) – Desculpe! Foi sem querer!
MORTO –
Tudo bem, eu não senti nada mesmo. Mas que história é essa
de morto vivo?
LULA –
Besteira
minha... Ouvi falar que tem gente que não consegue morrer de
uma vez de tanto dívida que tem com o Homem lá de cima! Aí
fica penando no meio do mundo. Mas não é o seu caso não...
MORTO –
Se
eu devo não lembro, nunca fiz trato com Ele. Mas isso tudo é
bobagem! Deve haver uma explicação lógica, uma razão
científica para tudo isso que está acontecendo comigo. O
problema é que eu não tenho a menor idéia de qual seja.
LULA –
Mas me
diga uma coisa: que sacanagem foi essa de lhe enterrarem sem
calça?
MORTO – Coisa aí da
viúva! Vai aproveitar a calça para um dos safados dos meus
ex-cunhados. Eles não usam paletó. Voaram em cima das minhas
outras roupas e não sobrou nada! Nem sapatos, nem camisas,
nem calças... Paletó eu só tinha esse. Também nunca gostei
de usar. A gravata estou usando pela primeira vez. Foi um
presente de amigo secreto. Pois é: me jogaram
dentro do caixão, botaram um pano velho em cima das minhas
pernas e encheram de flores tiradas do jardim. Do jardim que
eu passei a vida toda cuidando com o maior carinho, por
conta de uma roseira que, durante quatro anos, me ofertou as
mais bela rosas da minha vida. Pelo menos, o meu jardim, eu
levo comigo! Se é que eu vou para algum lugar!
LULA –
Estou
besta! Que familiazinha a sua, heim? Eu vi a viúva chorando
e me pareceu um pouco falso...
MORTO –
Um
pouco? Bote falso nisso!
LULA –
Mas o
garoto estava chorando de verdade! É seu filho?
MORTO – É . É
a única coisa boa que existe nessa casa. Mas vamos a nossa
brincadeira. Entre logo no caixão que eu vou me deitar. (Lula
entra no caixão e assume a postura de um defunto. O
Morto se deita. Os outros voltam a rezar, mas já com a
conclusão das orações. A viúva olha para o local onde está o
caixão, deparando-se com a nova situação. Toma um enorme
susto e grita apavorada. O Morto senta-se. Todos
voltam a ficar parados e mudos) – Vamos logo! Coloque-me
de volta no caixão. . (Feito o
retorno e com as flores novamente arrumadas, o morto
deita-se).
HOMEM –
O
que houve? A senhora gritou!
MULHER –
Gritou por que? Por que gritou?
VELHO –
Ai
que susto que eu tomei!
VIÚVA –
O
senhor também viu?
VELHO –
Viu
o que?
VIÚVA –
O
defunto no chão!
VELHO –
Que
defunto no chão, minha senhora! Eu me assustei foi com o seu
grito!
VIÚVA – Eu juro que vi
o defunto no chão e esse homem aí dentro do caixão.
LULA –
Êpa! Que é
isso minha senhora? Eu estou vivo e bem vivo. Isola!
VIÚVA –
Eu quis dizer
que pensei que tinha visto. Não precisa ser tão grosseiro...
MULHER –
Calma, dona Waldete! A senhora deve estar estressada com a
trabalheira que teve nos últimos dias e muito abalada com o
falecimento do seu marido. É natural que imagine coisas...
VIÚVA –
A
senhora acha que eu estou ficando louca, é?
MULHER –
Não! Não é isso!
HOMEM –
É
esse ambiente! Essas orações, essas velas acesas, o
caixão...
ROSA –
(Que
entrou um pouco antes e ouviu tudo, dirige-se a
Lula,
para quem fala em voz baixa) – Não
ligue não. Ela deve estar com a consciência pesada! Esse
negócio de visão é para quem tem culpa em cartório!
(Noutro tom) – O senhor quer mais um pouco daquela
bebida?
LULA –
Não,
obrigado. (Noutro tom) – Por que esse negócio de
culpa em cartório e consciência pesada? Tem alguma coisa que
eu não sei?
ROSA –
Sei não!
Falei por falar, pois não é da minha conta!
LULA –
Mas você
fala como se houvesse alguma coisa de errado. Pode confiar
em mim. Boca de siri...
ROSA –
Não é nada
não. É que eu fico pensando: o coroa aí estava bonzinho,
vendendo saúde, eu que o diga! Não sentia uma dor de cabeça.
Só as brigas com a madame ali por causa das bebedeiras
dela.
LULA –
Bebedeiras?!
ROSA –
Sim! Essa
daí quando começava a beber não queria mais parar! Quanto
mais bebia, mais vontade tinha! Depois fazia besteiras,
falava enrolado... Quando isso acontecia, terminava em
briga. De repente, de uns tempos para cá, ela mudou
completamente: parou de beber, passou a agradar o coroa,
ficou boazinha demais! Chegou até a fazer uma comida
estrangeira que só ele comia, porque ela e o povo dela, eram
chegados mesmo a uma buchada, uma rabada, uma panelada com
mocotó e tudo, essas comidas extravagantes, não sabe? Pois
bem, além da comida reservou uma cachaça especial só para
ele. Era ela mesma quem servia. Só uma dose por dia, para
não fazer mal. Com isso o homem foi ficando manhoso,
preguiçoso, sem vontade: eu passava por ele e ele nem mexia
mais comigo...
LULA –
Mexia
como?
ROSA –
Aquelas
brincadeiras, não sabe? Mas deixe eu terminar a minha
história, antes que a madame me chame. Aí o homem começou a
se sentir mal, a sentir dores, a ficar fraco, a tomar um
bocado de remédio que a sogra, que não tolerava ele,
passava, se fazendo de bacana...
LULA –
E a sogra
dele é médica?
ROSA –
Não!
Catimbozeira!
LULA –
Virgem!
Ela é aquela ali?
ROSA –
Não! Não
tem ninguém da família da madame aqui não. Logo que souberam
que o coroa tinha pifado, estiveram aqui e levaram um bocado
de coisa embora e não voltaram mais. Saíram de carro cheio.
Acho que foi para passar a perna na família dele, que também
ainda não apareceu ninguém dela por aqui! Mas como eu estava
dizendo, os remédios da sogra não adiantaram nada e pronto!
Agora o senhor me diga uma coisa: não é esquisito tudo isso?
LULA –
No mínimo!
ROSA –
Agora eu
acho que já falei demais, vou lá para dentro... Não quer
mesmo outra dose?
LULA – Não!
Obrigado! (Rosa sai e Lula dirige-se ao caixão e
fala baixo) Seu José, sente-se, por favor. (O
Morto atende e volta a situação anterior) – Preciso
ir lá dentro, na geladeira. Abastecer, não sabe?
MORTO –
Fique à vontade.
LULA –
Obrigado.
(Sai).
MORTO –
(Enquanto aguarda, cantarola, batucando no caixão):
“Sei que amanhã
quando eu morrer,
Os
meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração.
Alguém até há de chorar
E
querer me homenagear,
Fazendo de ouro um violão.
Mas depois que o tempo passar
E
ninguém mais se lembrar
Que eu fui embora,
Por isso é que eu penso assim:
Se
alguém quiser fazer por mim
Que faça agora.”
(Samba: Quando eu me chamar saudade –
Guilherme de Brito/Nelson Cavaquinho).
LULA –
(Que entrou antes e ficou acompanhando e
dançando a música) – Esse é dos
bons! Mas tem outro que dá mais certo com o senhor! (Vai
para junto do caixão e também fica batucando nele) – “
Eu preciso de forças para caminhar,
Minhas pernas cansaram, já não posso
andar,
Eu não tenho rumo nem onde parar,
Eu só peço a Deus para me ajudar.
Na vida fiz tudo para ser feliz,
Eu ajudei a todos que eu tanto quis.
De repente ao me ver me encontro só,
E olhando no espelho as vezes tenho
dó.
Que vou fazer se já estou no fim?
Eu ajudei a todos, ninguém ajudou a
mim.
Que vou fazer se já estou no fim?
Eu ajudei a todos ninguém ajudou a
mim.” (Samba: Água Bebida – Marques Filho) –
Então? Gostou? Não imaginava que o senhor fosse chegado a um
sambinha!
MORTO – Sem
preconceitos! Claro que eu gosto também de Beethoven, da sua
“Para Elisa”. La-ra-lá-ra-la-lá-ra-la-ra (Solfeja) –
Ou a “Sinfonia Número Cinco”. Tan, tan, tan, tan...
(Solfeja) - Mas a verdadeira música popular
brasileira é admirável! Não essas porcarias de duplo
sentido, essas músicas bregas e de sacanagem que infestam o
país.
LULA –
Eu só
entendo mesmo de samba! (Canta) – “Tire o seu sorriso
do caminho que eu quero passar com a minha dor...” Lindo,
não é? Eu me amarro!
MORTO –
Mas
você quando chegou aqui, vinha cantando uma música danada de
brega!
LULA –
Aprendi lá
no bar. Uma cantora velha, feia que só um trem virado, toda
noite canta aquilo. A gente termina gravando na cabeça e sai
cantando por aí. Principalmente depois de tomar umas e
outras! Mas vamos mudar um pouco de assunto? E aquela
história da empregadinha?
MORTO –
Qual delas?
LULA –
Que o
senhor mexia com ela, fazia umas brincadeirinhas!...
MORTO –
Meu
amigo, a Rosa é uma tarada! Ela deve ter furor uterino! Olhe
que ela já está dando em cima de você!
LULA –
Ela que
não venha! Eu arraso com o furor dela!
MORTO –
Você não sabe com quem está se metendo não! Hoje ela está
aqui por causa dessa minha situação. Mas ela só vinha uma
vez por semana para a arrumação da casa. Aí não tinha jeito!
Era a viúva aí sair para a repartição, ela encostava.
Começava fazendo uns alisados, eu sentindo cócegas e ela se
esfregando, até quando pressentia que eu já estava pronto...
LULA –
Oi! E como
ela pressentia?
MORTO –
Ora
essa! Pegando, rapaz!
A
partir daí era trepar mesmo! Agora não pense que era só
comigo não. Ela trabalhava cada dia da semana numa casa
diferente, cada dia da semana ela também tinha um macho
diferente! Isto é: menos aos sábados e domingos, quando ela
se dedicava ao marido.
LULA –
Casada?!
MORTO –
E
com três filhos!
LULA –
Assim é
foda! Opa! Desculpe.
MORTO –
Não
tem o que se desculpar não. É foda mesmo! Ela foi dizer a
uma amiga aí da viúva, que da última filha que ela teve o
pai era eu. Claro que foi para que essa história chegasse ao
conhecimento dessa imbecil da minha ex-mulher...
LULA –
Ex-mulher? Vocês já estavam separados?
MORTO –
E
eu não estou morto? Então é ex mesmo!
LULA –
Sim, é!...
Eu não me acostumei ainda com a idéia de estar conversando
com um defunto!
MORTO –
Não
gosto dessa palavra. Ela lembra uma coisa que está
apodrecendo. Falecido é melhor! Mas voltando ao assunto: ela
disse também que a filha era minha porque tinha um sinal
igualzinho a um que eu tenho na bunda. Foi aí que ela se
ferrou! Eu não tenho qualquer sinal em canto nenhum do
corpo. Ela confundiu as bundas! O pior é que essa viúva
quenga, depois de viver tanto tempo comigo, ainda não
conhecia a minha bunda! Não é que veio me pedir para eu
mostrar o meu traseiro!
LULA –
(Começa a rir) –
Desculpe! Não pude me conter...
(Continua rindo).
MORTO –
Não
faça cerimônia, pode rir à vontade!
LULA –
E o senhor
mostrou?
MORTO –
Na
hora, não! Chantageei! Disse: mostro, mas tem uma coisa, se
você não encontrar o que está procurando, você também fica
na mesma posição ridícula que eu vou ficar, nua, de bunda
para cima, que eu também vou examinar a sua. A burra topou,
não encontrou sinal algum e teve que pagar o prometido.
LULA –
Que danado
o senhor queria examinar na bunda da sua mulher?
MORTO –
Examinar coisa nenhuma! Eu meti foi o chute. Dei com o pé na
bunda. Ela gritou, chorou, mas a coisa já estava feita.
LULA –
Isso!
Mulher só vai no cacete! Espere um pouco que eu vou lá
dentro me reabastecer! Não deite não! Não quero ser
encontrado com a boca na botija!
MORTO –
(Falando para si) -
Esse cara vai
tomar a minha cachaça todinha! Também não serve mais para
mim... (Tempo) - E o que é que eu vou ficar fazendo
agora? Esse povo todo parado... Sabe de uma coisa? Eu vou é
me deitar. Pelo menos, assim, eu fico ouvindo as baboseiras
que eles vão dizer. (Deita-se. Todos voltam a
movimentar-se).
MULHER –
E
os filhos do primeiro casamento dele? Não apareceram ainda?!
VIÚVA –
Que
nada! Não se interessavam muito por ele não. São meio
ciganos: só aparecem quando querem tirar alguma vantagem!
VELHO –
Eles não gostavam do pai?
VIÚVA –
Não
me parece. Não eram brigados mas se viam muito pouco. Ele é
que insistia em chamá-los para vir aqui. Dificilmente
apareciam. Mas eu mandei avisar a todos.
GAROTO
–
(Entrando) – Mãe! Posso comer a carne do meu pai que
está na geladeira?
VIÚVA –
(Gritando) –
Não! Já mandei Rosa jogar fora aquela
porcaria. Peça a ela para preparar alguma coisa para você
comer...
GAROTO –
Mas
eu gosto daquela carne!
VIÚVA –
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